
NOTA: A resenha trata da 2. ed. de 2010; nossa tradução é da 3. ed. de 2018.
Autor: Juan José Sanguineti
Tradutor: Leonardo Rodrigues Lopes
JOSÉ SANGUINETI, Juan. Recensioni. Acta Philosophica, Roma, v. 21, n. 1, p. 196-199, 2012. Disponível em: https://www.actaphilosophica.it/article/view/3893. Acesso em: 12 fev. 2026.
Antonio Livi. Filosofia del senso comune: Logica della scienza e della fede. Nuova edizione interamente rielaborata. Roma: Leonardo da Vinci, 2010. 210p.
Esta nova edição de Filosofia do senso comum (a primeira remonta a 1990) apresenta de maneira sistemática e profunda a tese de Antonio Livi sobre o papel fundamental do senso comum no saber filosófico. Estamos diante de uma obra de maturidade na qual o autor, após anos de debates, de docência, de trocas de opiniões, mas também de críticas, consegue expor com clareza lógica e expositiva a temática do senso comum, “núcleo forte” do saber e elo de conjunção entre o conhecimento ordinário e a filosofia científica.
Expor o conteúdo e a forma lógica do senso comum significa explicitar o conhecimento metafísico existencial de base da pessoa por meio de uma reflexão crítica e de uma argumentação demonstrativa, tarefa própria da filosofia entendida não como saber “espontâneo”, mas como uma ciência rigorosa e superior às ciências particulares. A filosofia situa-se, desse modo, para nos expressarmos em termos clássicos, entre o intellectus e a ratio, na medida em que busca esmiuçar os conteúdos do intellectus por meio da metodologia racional característica da filosofia. O nível epistemológico deste tratado, segundo a terminologia de Livi, é a “lógica alética”, ou seja, uma lógica gnoseológica prévia à lógica formal, capaz de vincular o senso comum à metafísica. A lógica alética oferece a esta última o núcleo teórico fundamental com o qual se pode proceder ao exame das diversas posições epistemológicas, bem como evidenciar a estrutura essencial do conhecimento humano em seu valor de verdade.
O primeiro capítulo considera os diversos significados do termo “senso comum” na história da filosofia. Por vezes, ele foi utilizado com uma acepção sociológica negativa e, assim, reduzido a um conhecimento pré-científico vago e popular. No campo da filosofia da mente, por exemplo, Patricia Churchland fala em Folkpsychology para se referir à visão psicológica comum, de escasso valor e prévia ao saber neurocientífico. Este último viria a substituir e eliminar a psicologia popular (“eliminativismo”), tal como a crença fenomênica do pôr do sol foi superada pela física. Em outras versões negativas ainda mais radicais, o senso comum é interpretado como um instrumento a serviço de posições ideológicas.
Existem também versões positivas, mas minimalistas, do senso comum, quando este é visto como simples “bom senso” de valor prático, sem relevância teórica, ou como uma espécie de “intuição” ou “inclinação” estética ou moral comum a todos os homens. Mais próximas da posição de Livi estão as ideias dos “filósofos do senso comum”, como Pascal, Buffier, Vico, Reid, Jacobi, Hamilton, Balmes, Searle e outros, que interpretaram o senso comum como uma intuição válida da realidade existencial e como uma plataforma fundante das verdades metafísicas, morais e religiosas.
A tese de Livi é que o senso comum é um conjunto orgânico de evidências primárias pertencentes à experiência originária e metafísica de cada pessoa humana, sempre presente, ao menos de modo implícito, a título de pressuposto fortíssimo — aliás, ineliminável — de qualquer outra forma de saber derivado, mediado ou imediato, porém mais particular. Creio que a encíclica do beato João Paulo II, Fides et ratio, em seu n. 4 (parte final), contenha uma menção explícita ao senso comum, denominado nesse documento como “filosofia implícita”. Parece-me importante que, para Livi, o senso comum não seja uma “lista” de axiomas primários, mas sim uma unidade orgânica (não um “sistema”), no sentido de que cada conhecimento da experiência ontológica primária (sobre o mundo, sobre si mesmo, sobre as relações sociais, etc.) está sempre em conexão com outros conhecimentos do mesmo tipo e constitui, em última análise, uma experiência vital unitária e flexível, a tal ponto que qualquer tentativa de separação de uma verdade do senso comum em relação às outras (por exemplo, separar o eu do mundo, a moral da realidade existencial, a pessoa da vida, etc.) leva à sua descaracterização e gera uma infinidade de pseudoproblemas metafísicos.
Os conhecimentos intelectivos de base, muito mais amplos que os “primeiros princípios” aristotélicos, constituem o fundamento ontológico veritativo de todo saber, de maneira, eu diria, paralela à função que Aristóteles atribuía ao princípio de não contradição, mas ampliada a outros conhecimentos primários, sobretudo de caráter existencial, tais como a existência do mundo, dos outros, do próprio sujeito, da causalidade, da moralidade e até de Deus. Precisamente esses conhecimentos existenciais fornecem a base de experiência para a indução dos primeiros princípios universais, tanto na ordem teórica quanto na prática.
Os conhecimentos do senso comum são “indicativos”, segundo Livi, pois sinalizam uma realidade indubitável (um est: existe a causalidade, existe a liberdade, existe a comunicação com os outros), mas não esclarecem sua essência, entendida em sentido amplo: por exemplo, quando compreendemos perfeitamente o sentido veritativo e incontroverso de “eu sou”, sem dispormos de uma teoria, ou melhor, nem mesmo de uma conceituação reflexa relativa ao que seja o “eu” ou o “sou” da certeza ego sum. Operar tal conceituação ou propor, ao menos, um esclarecimento conceitual é tarefa da filosofia, e é o que, de fato, fazem os filósofos, ainda que com resultados distintos.
O senso comum passa, por isso, a constituir uma espécie de núcleo duro e critério de verificação da validade de toda filosofia, visto que uma teoria filosófica (mas também uma ciência particular) que pretendesse propor uma “nova versão do senso comum” em contraste com a experiência originária — por exemplo, uma filosofia ou ciência que pretendesse “explicar-nos” que não somos livres — seria ipso facto invalidada justamente por causa de tal contraste (seria invalidada também de modo “vivido”: ninguém acreditaria nisso seriamente, nem mesmo os defensores de tal posição). O senso comum originário, portanto, é como o termo de uma reductio retrospectiva pelo saber filosófico. A filosofia, obviamente, vai além do senso comum, mas nunca pode separar-se dele. Toda a sua direção racional rumo a uma compreensão mais profunda da realidade (a sabedoria ou a racionalidade filosófica) deve ser feita sempre seguindo as indicações intencionais da experiência originária, a qual pode ser traída pelos filósofos, mas não eliminada.
Querendo fazer uma comparação com a visão aristotélico-tomista das virtudes intelectuais fundamentais (intellectus principiorum, sabedoria, ciência, prudência e arte), eu diria que os elementos do senso comum, como expostos por Livi, não se limitam ao intellectus teórico e prático (prático no sentido da sindérese de Santo Tomás), mas cobrem também a sabedoria — não necessariamente a sapientia philosophorum, mas um mínimo fortíssimo de sabedoria metafísica inerente a cada pessoa humana, precisamente enquanto sujeito inteligente e voluntário.
Por esse motivo, Livi inclui o conhecimento da existência de Deus no senso comum, sem, contudo, cair no ontologismo. Não porque Deus seja evidente à nossa razão, mas porque a percepção mediada e racional de Deus, por meio da experiência das coisas do mundo, é natural a todo homem, na medida em que entra no âmbito dos conhecimentos primários do exercício natural da ratio. A XI Sessão Plenária da Pontifícia Academia de São Tomás (junho de 2011) foi dedicada precisamente ao aprofundamento da inclinatio naturalis para o conhecimento da verdade de Deus afirmada por Tomás de Aquino na S. Th., I-II, q. 94, a. 2.
O segundo capítulo considera as características gnoseológicas do senso comum e desenvolve seu conteúdo sumário em cinco pontos: o primeiro referente à existência das coisas do mundo; o segundo quanto à existência do próprio sujeito; o terceiro em relação à existência de outras pessoas; o quarto em relação à moralidade; e o quinto, por fim, em relação a Deus. Livi precisa que o conhecimento dessas realidades é prévio a qualquer objetivação; pelo contrário, alguns referentes intencionais do senso comum não são “objetos”, portanto, não podem ser compreendidos em uma verdadeira objetivação (por exemplo, o ser, o eu, Deus).
A meu ver, nesta seção poderiam ser postos mais em relevo dois princípios fundamentais: o de não contradição e o de causalidade. O primeiro governa de maneira absoluta toda forma de pensamento racional, exigindo a coerência, enquanto o segundo impele para a passagem dos fenômenos às causas, levando em conta a variedade de sentidos do conceito de causa. Ratio e causalidade são os eixos centrais de nosso conhecimento mediado, uma vez que a razão parte do imediato e procede à resolução nos princípios segundo as exigências da causalidade. Este ponto não é puramente especulativo, mas incide profundamente sobre a vida humana, entendida como um “drama existencial” (e pessoal) que tende a resolver o problema do sentido da minha existência no mundo.
O terceiro capítulo ocupa-se da demonstração das certezas do senso comum. Enquanto conhecimentos imediatos, elas não são demonstráveis, pois obviamente não há premissas ou conhecimentos prévios, se é verdade que tais certezas constituem os pressupostos de todo conhecimento. Mas, segundo o autor, podemos e devemos tentar “demonstrá-las” no âmbito da lógica alética com um procedimento regressivo que leva a evidenciar até que ponto as certezas primárias são os pressupostos últimos de qualquer conhecimento, inclusive de qualquer ação racional realizada conscientemente.
Em outras palavras, é necessário apresentar uma “motivação” da expressão linguística dos princípios do senso comum. Tal motivação encontra-se nos pressupostos implícitos na experiência originária, o que comporta a realização de uma forma de indução executada a partir do enunciado do senso comum, tomado como se fosse uma hipótese, mas elevado ao nível da reflexão racional. A experiência sustenta, portanto, o sentido e a verdade da afirmação do senso comum e de sua demonstração, a qual consiste, então, em uma sorte de reflexão sobre a verdade “julgada” (expressa em forma de juízo) e referida regressivamente à experiência originária.
O procedimento demonstrativo invocado por Livi introduz um elemento de racionalidade não para fundar o que é evidente, mas antes para dar um passo “atrás”, eu diria, o qual, a partir do juízo reflexivo sobre os princípios, tomado como matéria de discussão, procede em direção à imediatez cognitiva, justamente para torná-la mais consciente. Um caso especial é, por outro lado, a demonstração da existência de Deus como verdade de senso comum, onde entra em jogo o princípio de causalidade transcendental.
A demonstração, elemento metodológico da lógica alética, é de algum modo um procedimento “dialético” semelhante à dialética empregada por Aristóteles para a discussão dos grandes princípios. Tal metodologia pode ser empregada, como Livi faz neste estudo, para melhor evidenciar os conteúdos do senso comum, mas também para mostrar a autocontradição de quem os nega em palavras, ou ainda para trazer à luz a petição de princípio de quem pretende demonstrá-los cientificamente.
Dado que a demonstração das verdades de senso comum se coloca no plano da ratio, parece oportuna a referência ao nível suprarracional do intellectus, no qual se realiza a percepção ontológica habitual — isto é, não intermitente, mas contínua enquanto se pensa ou se vive de modo consciente — do ser do mundo, das operações do pensamento e da luz intelectiva da qual procedem os pensamentos, o que, em última análise, remete à pessoa enquanto sujeito cognoscente. Esse nível (intellectus) corresponde ao senso comum em sua condição gnoseológica de hábito cognitivo pré-linguístico, pré-objetivo e pré-racional; uma dimensão na qual ainda não se realizam operações (conceitos, juízos, raciocínios), mas na qual se encontra a própria raiz que torna possíveis todas as operações mentais. Nesse sentido, eu diria que, acima da verdade do juízo, existe uma verdade gnoseológica pré-operativa, que consiste no saber habitual do sujeito cognoscente enquanto conhece a verdade do ser, ou seja, enquanto se encontra intencionalmente no mundo com uma adequação veritativa prévia a qualquer operação. Esta seria uma versão mais elevada da verdade em relação à simples adequação proporcionada do juízo, entendido como operação mental referida à realidade dos fatos.
O quarto e último capítulo aborda o papel de fundamento das verdades do senso comum em relação ao conhecimento mediado da fé por via de testemunho, bem como em relação ao saber científico de tipo inferencial, também ele mediado. A experiência originária torna natural e razoável acreditar no testemunho dos outros, obviamente, com as devidas condições, devido aos limites do conhecimento direto e da simetria gnoseológica — quanto à verdade — de cada sujeito em relação aos demais. Crer é um ato cognitivo mediado, mas a credibilidade alheia é uma evidência primária baseada na condição comunicativa existente entre os homens. Quanto ao conhecimento científico, por fim, Livi aponta seu limite crítico, em particular o caráter derivado do saber mediado, uma vez que está sempre fundado nos pressupostos do senso comum.
O livro de Antonio Livi é rigoroso e merece uma atenção cuidadosa. Sua tese vai à raiz da filosofia do conhecimento e permite evitar as complicações artificiais que nascem da tentativa de ignorar a condição gnoseológica primária da pessoa humana. Creio que a temática exposta possa ser aplicada ulteriormente às inclinações e à vontade humana, onde também existe uma espécie de “senso comum” que leva a amar naturalmente e de modo correto tudo aquilo que a experiência ontológica primária nos revela como consistente e, portanto, como amável (amor ao mundo, de si mesmo, dos outros, de Deus). Este livro é importante para estudiosos, mas também para aqueles que começam a percorrer o caminho da verdade no campo filosófico ou científico.
[1] Este texto foi traduzido e publicado com permissão da Revista Acta Philosophica.
[2] Tão logo seja publicada uma resenha da tradução da terceira edição italiana de 2018, publicada em língua portuguesa pela Actus Essendi, disponibilizaremos o link.
